Reviva a democracia.

De Lucas Simao para Cadeira13.

Dentre as muitas reflexões da peça uma delas é o Tempo, destruição e construção caminham juntas no mesmo tempo-espaço, as histórias contadas perspassam tempos distintos e sempre caem em lugar comum.
A ideia de construção do cenário durante o desenrolar da peça contrapõe ao seu tema principa,  a destruição.
O espetáculo da coreógrafa espanhola Laida Azkona Goñi é do vídeoartista chileno Txalo Toloza, nos coloca a par das violências que há muito tempo ocorrem na região amazônica, uma verdadeira aula de história,  didática, a peça navega por um Brasil omitido, os massacres dos povos indígenas que ocorre a séculos, a exploração econômica, os arranjos políticos, os crimes e assassinatos de defensores ambientais, lideranças indígenas e outros que se atravessarem  o caminho do progresso.
O Brasil quintal do mundo, Brasil o país subdesenvolvido, Brasil o país do futuro que nunca chega, todos esses BRASIS são trazidos a tona atraves das estações amazônicas narradas pelo povo originario.
Nos resta ainda pensar, que tempo que vivemos? Qual será o tempo que nos salvaremos? Ainda há tempo?
A nossa história é revisitada com poesia e graça, mesmo sendo pra falar das nossas desgraças, aí está a magia do teatro.
Viva a arte viva o teatro. Reviva a democracia.  Viva a floresta em pé.
📷 @lucasnsimao
#arte #teatro #extensãomirada #mirada #sesc #cadeira13 #azkona

Mirada, a potência dos encontros

Escrito por Eduardo Nunomura para Farafafa.

Cena da peça
Cena da peça «Teatro Amazonas» – Foto: Tristan Perez-Martin

O teatro é a arte do encontro, por mais chavão que a frase soe. Mesmo que artistas tenham se desdobrado para manter, durante a pandemia, os espetáculos cênicos em formatos híbridos, transmitidos por streaming ao vivo ou de forma gravada, nada se compara à alquimia do olho-no-olho entre plateia e artistas. O Festival Mirada, encerrado no domingo (18), revelou-se como o encontro em múltiplas possibilidades: por sua potência, pela diversidade das obras, pelos rompimentos estéticos e conceituais, por negar ou rever a história imposta, por permitir a todos respirar em seu sentido mais amplo.

Organizado minuciosa e extraordinariamente pela unidade Sesc Santos, o festival reuniu produções ibero-americanas num momento crucial para o Brasil. O projeto colonialista, talvez o nó górdio das sociedades modernas, está em curso e sendo colocado à prova, justamente quando o País celebra (ou deveria tentar refletir sobre) o Bicentenário da Independência. Jair Bolsonaro, cujas pretensões para se reeleger parecem um navio num destino sem volta rumo ao naufrágio, era a presença non-grata do Festival Mirada, como em tantos outros eventos culturais. Mas o que ele representa em essência, o projeto colonialista, continua em pleno vigor, no ano de 2022.

Embora o país homenageado fosse Portugal, o Brasil que sedia o festival ganhou uma centralidade a mais nessa edição. Foram apresentadas algumas obras de outros países que olham para o Brasil e refletem qual é o nosso papel no mundo. Uma delas se impôs por inúmeras razões: Teatro Amazonas, da dupla Azkona & Toloza. Ovacionados ao fim da apresentação no sábado, no Teatro Guarany, no centro de Santos, a coreógrafa Laida Azkona Goñi e o videoartista Txalo Toloza-Fernández, mostram como a Amazônia é hoje o que todo o território brasileiro foi para os portugueses no século 16, que ocuparam apenas as beiras do nosso litoral: um mero projeto de colonização.

Espetáculo em formato de teatro documental, em que Laida e Txalo se valem da técnica do verbatim, eles deixam claro que não são atores, e estão reproduzindo palavras e tonalidades de vozes de personagens da própria região amazônica que visitaram recentemente. “Os desertos são os lugares onde o capitalismo talvez seja mais duro, onde não há nada e ninguém vive”, diz Txalo. “Os projetos de desenvolvimento colonial e os de agora precisam dos desertos para legitimarem a sua entrada”, complementa Laida. Isso ocorreu no Deserto do Atacama, no Chile, onde a dupla encontrou inspiração para produzir o espetáculo Extraños Mares Arden (2014), na Patagônia argentina subtraída por milionários, que gerou a montagem Tierras Del Sud (2018), e agora no “deserto verde”, como também é conhecida a Amazônia. Os três espetáculos formam uma trilogia que se encerra com uma particularidade.

“Dos três territórios, a Amazônia atualmente é o lugar mais violento, porque há pessoas sendo assassinadas diariamente. Mas há também a violência da pobreza, da negação das culturais locais, e é muito mais dramático”, acrescenta Txalo, ao ser questionado se podia comparar as localidades das obras da trilogia. Teatro Amazonas começa sob um palco limpo e vai, lentamente, ganhando formas lúdicas que representarão as matas e construções. Didaticamente, eles falam de inúmeros projetos de colonização e exploração predatória da floresta, como a Fordlândia (PA), o projeto Jari (AP) e o próprio Teatro Amazonas (AM), da morte de lideranças defensoras da floresta, como Chico Mendes e Dorothy Stang. Ao final, o espetáculo mostra que vozes subjugadas da própria região, como os povos indígenas, estão se fortalecendo para reagir a esse processo colonizador que nunca foi interrompido.

O irônico é que a montagem Teatro Amazonas foi produzida por uma dupla de estrangeiros: Laida é espanhola e Txalo, chileno. Questionados como tem sido a reação do público em relação a essa obra que estreou há dois anos, no Chile, e já rodou palcos europeus, mas parece feita sob medida para o Brasil de Bolsonaro, Laida se adianta para responder. Na Europa, quando o espetáculo foi encenado, as pessoas diziam a eles: “A peça é muito interessante, eu não sabia disso, e no dia seguinte afirmam que levantaram pensando sobre o tema”. E Txalo arremata: “Quando apresentamos na América Latina, as pessoas nos dizem que não é só importante, mas urgente.”

THE MAPPING OF US

Escrito por Francesco Chiaro para Persinsala.

Maps are never innocent nor neutral, seeing as how they represent not a mere reflection of power but power itself. Indeed, as any other social construction, maps too are an extremely biased “objective representation” of our perceived reality, forcing upon a territory the arbitrary and functional resolution of conflicts yet to be solved, if at all faced. The duo Azkona-Toloza knows this all too well, as they kick things off by “mapping out” the area of their enquiry-based approach regarding the struggle of Mapuche communities in occupied Puelmapu lands. Indeed, while standing on a bare stage filled with what would later become yet another representation of reality, the artists introduce their scrupulous ethnographic research by making use of a huge map projected on the backdrop of Juliana Acevedo and MiPrimerDrop’ set, to which information are quaintly added in a pleasant albeit overly didactic manner.

Reminiscent of the aesthetics and dramatic structure of Barcelona-based Agrupación Señor Serrano’s play The Mountain (another example of documentary theatre’s potentialities), Tierras del Sud does not shy away from an interdisciplinary approach that makes full use of digital media on stage, thus creating a concoction of pictures, videos and written fragments that steps into the breach of a fleeting actorial presence. Indeed, the cogent narration set up by Azkona-Toloza stands out mostly for its “artificial” nature in which both performers gladly take a step back, letting the overwhelming story of Argentine’s shameful neo-colonialist atrocities steal the show. By making use of appalling historical documents, symphonic Mapudungún words and reported interviews, then, the duo slowly worms its way through the bloodcurdling “discovery”, conquest and subjugation of Patagonia’s lands by the West in an effort to remove the self-absolving patina of white innocence that was skilfully and extensively laid upon the barbarities carried out in the name of so-called progress, all the while bringing to the fore the actual process that led to the invention of a European country on the other side of the Atlantic Ocean.

Part of a wider trilogy initiated in 2014 called PacíficoTierras del Sud takes the opportunity to teach its audience a shedload about the region all the while provoking it to some serious reflections about the relationship of Eurocentric History and Culture with current inequalities worldwide, thus adding to the already existent but never too big corpus of post-colonial works circulating in the Old Continent -a great merit in and of itself.

Nevertheless, as it often happens when European artists take the side of a victim of the European heritage of bordering practices, Azkona and Toloza too find themselves treading unsteadily on the tightrope of cultural appropriation, perpetuating a centuries-long tradition of “developed-world” intellectuals presenting their representation of life elsewhere to “developed-world” audiences. As a matter of fact, while we sceptically look on as the bodies on stage re-enact and replace the bodies of Mapuche prisoners immortalized in the human zoos of Western necropolitics, or as we listen to the voices of the performers that listlessly report the testimony of remarkably brave human beings who practice their autonomy proudly and peacefully in spite of police brutalities and even death, we cannot help but wonder if, given the relative ease of contemporary communications and transportation, it is not about time that the actual voices of people from other cultures talking about themselves be included more frequently in the dialogue of Western theatre.

TIERRAS DEL SUD _ no @festivaldealmada

Publicado en Antro Positivo por Ruy Filho

«Trata-se de uma trilogia. Isso é importante ser dito, desde já, pois é a sucessão dos espetáculos que confirma a importância desse projeto imenso. Grandioso não apenas pelo oferecido na dramaturgia, também pelo impacto de suas revelações. Em Extraños mares arden (2014), os alicerces das artes visuais contemporâneas e o colecionismo pelas megacorporações leva à investigação profunda sobre a mineração no deserto do Atacama, no Chile. No trabalho mais recente, Teatro Amazonas (2020), o teatro de ópera e o estádio de futebol em Manaus dão as dimensões sobre a industrialização nas áreas indígenas. Em Almada, assiste-se a segunda parte: Tierras del Sud. Neste, a investigação volta-se ao como as terras Mapuche, em Patagônia, Argentina, foram saqueadas e hoje são propriedades de ingleses e, em especial, dos irmãos Benetton, que usaram da moda para fabricar uma imagem própria inversa ao mundo. São obras que elevam a perspectiva do entendido por teatro documental a outro patamar: narrativas denunciativas com pesquisas impressionantes e coragem inigualável de seus artistas. A imensa quantidade de informações é organizada e experimentada no espaço cênico trabalhdo como dispositivo de ilustração. Os volumes, arquiteturas, ocupações, cores e seus corpos em cena não se limitam a traduzir. Materializam aquilo que, na forma de dados, pode parecer menor em importância ou demasiadamente abstrato. Trata-se, assim, de outra qualidade de narrativa documental. Não apenas o trazer à cena depoimentos ou encenar as falas de entrevistados. É preciso conviver no tempo com o apresentado, pois o espetáculo age especialmente a partir de sua intervenção ao como as narrativas são erguidas nos planos da percepção e do cognitivo. Tierras del Sud repete o impacto dos outros dois trabalhos. É impossível deixarmos o teatro sem nos perguntarmos como nos tornamos tão cegos quando tudo é tão explícito.»
__ [ Ruy Filho | Antro Positivo ]